quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
Uma obscena impunidade
Ainda no Público, descubro que um foragido à Justiça pode, inacreditavelmente, ser sujeito a pagamento de caução para aguardar em liberdade a extradição para o país onde deve terminar de cumprir a sua pena, num cartaz absolutamente deprimente de dualidade de critérios.
Palavras não devolvem vidas
Também no Público, esta pérola da irresponsabilidade e da desresponsabilização: a Assembleia da República e o Governo defenderam “tolerância zero” para a Violência Contra as Mulheres, no dia em que se assinala o 10º aniversário do Dia Internacional para Eliminação deste tipo de crime.
Talvez seja bom recordar alguns aspectos em torno desta questão:
1) a violência contra seres humanos deve, toda ela, ser objecto de profunda revisão ao nível do Código Penal. Nenhuma forma deve ser tolerada, assim como o não deve qualquer legislação que facilite, por omissão ou paternalismo político, a reincidência no crime.
2) está precisamente na mão destes dois órgãos o agravamento das penas e a criação de medidas de coacção sérias - e não meramente cosméticas - para todos aqueles que incorrem neste tipo de prática. Termo de identidade e residência para um agressor que pode regressar a casa no próprio dia e reincidir no crime é, assumamo-lo, praticamente o mesmo que ser conivente com o crime ou participar dele.
3) talvez esta realidade se altere apenas no dia em que os nossos representantes políticos e judiciais comecem a ser constituídos arguidos em casos desta natureza pelo facto de contribuírem não apenas para a sua perpetuação mas inclusivé para o aumento dos seus números. Até lá, não creio que se modifique.
4) parece prevalecer, neste tipo de crimes, junto das autoridades policiais e judiciais, uma representação patriarcal e profundamente retrógrada da família e do conteúdo da sua rotina. Assim como parece prevalecer uma espécie de branqueamento da prática de certos crimes quando praticados sobre aqueles cidadãos aos quais a moral muito cristã considera "desviantes", com autoridade que ninguém reconhece ou atribui.
5) espera-se da legislação que instrua, sancionando, ao invés de "acompanhar a sociedade", como habitualmente faz e no que habitualmente se escuda para justificar inépcia própria. Não devemos esperar um crime para legislar no sentido de o sancionar de um modo tão contundente que - perdoem a expressão - imbecil algum(a) conceba sequer praticá-lo.
6) a "tolerância zero" que os representantes políticos tão prosaicamente proclamam numa das casas mais bem guardadas do país de pouco serve em todas as outras, e as suas palavras não devolvem a vida a quem a perdeu. É, pois, para com os legisladores que se impõe o início do exercício dessa "tolerância zero": são os primeiros responsáveis pela segurança dos cidadãos que representam.
Talvez seja bom recordar alguns aspectos em torno desta questão:
1) a violência contra seres humanos deve, toda ela, ser objecto de profunda revisão ao nível do Código Penal. Nenhuma forma deve ser tolerada, assim como o não deve qualquer legislação que facilite, por omissão ou paternalismo político, a reincidência no crime.
2) está precisamente na mão destes dois órgãos o agravamento das penas e a criação de medidas de coacção sérias - e não meramente cosméticas - para todos aqueles que incorrem neste tipo de prática. Termo de identidade e residência para um agressor que pode regressar a casa no próprio dia e reincidir no crime é, assumamo-lo, praticamente o mesmo que ser conivente com o crime ou participar dele.
3) talvez esta realidade se altere apenas no dia em que os nossos representantes políticos e judiciais comecem a ser constituídos arguidos em casos desta natureza pelo facto de contribuírem não apenas para a sua perpetuação mas inclusivé para o aumento dos seus números. Até lá, não creio que se modifique.
4) parece prevalecer, neste tipo de crimes, junto das autoridades policiais e judiciais, uma representação patriarcal e profundamente retrógrada da família e do conteúdo da sua rotina. Assim como parece prevalecer uma espécie de branqueamento da prática de certos crimes quando praticados sobre aqueles cidadãos aos quais a moral muito cristã considera "desviantes", com autoridade que ninguém reconhece ou atribui.
5) espera-se da legislação que instrua, sancionando, ao invés de "acompanhar a sociedade", como habitualmente faz e no que habitualmente se escuda para justificar inépcia própria. Não devemos esperar um crime para legislar no sentido de o sancionar de um modo tão contundente que - perdoem a expressão - imbecil algum(a) conceba sequer praticá-lo.
6) a "tolerância zero" que os representantes políticos tão prosaicamente proclamam numa das casas mais bem guardadas do país de pouco serve em todas as outras, e as suas palavras não devolvem a vida a quem a perdeu. É, pois, para com os legisladores que se impõe o início do exercício dessa "tolerância zero": são os primeiros responsáveis pela segurança dos cidadãos que representam.
Uma dupla tragédia
No Público lê-se hoje que um trabalho desenvolvido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto concluiu que entre 9 e 10 por cento dos casais portugueses são inférteis. É uma notícia aterradora. Vários milhares de pessoas biologicamente estão, assim, privadas de assegurar a continuidade do seu património genético. Deve levar-nos a pensar sobre o meio em que vivemos, sobre as vidas que conduzimos, sobre o quão pouco saudáveis são os ritmos que impomos à nossa vida, com consequências directas sobre a mesma e sobre vidas outras que não o serão vez alguma.
Será, inversamente, uma boa notícia para aquele contingente imenso de crianças a quem o mundo ainda não compensou pela pouca sorte que tiveram na lotaria familiar. Milhares, também. A quem provavelmente o afecto será ainda mais bem-vindo, perante toda a dor e anomia que sempre conheceram como realidade.
Talvez uma oportunidade se abra para uns e outros, e que as necessidades e carências mútuas possam ser supridas, assim a kafkiana burocracia portuguesa o permita.
Mas há nesta peça noticiosa uma outra coisa aterradora, em 2009. A juntar à tragédia imensa do sentimento de incompletude física decorrente da esterilidade biológica - e não afectiva, como por vezes os directamente envolvidos sentem -, uma outra tragédia pende como um abutre: a do desconhecimento sobre as causas da esterilidade. Um espaço do desconhecimento invariavelmente ocupado pelos arautos da paz paliativa religiosa, naturais predadores da fragilidade humana, cifrado num valor que deve merecer alguma reflexão após 5 séculos de filosofia racional: quase 40% dos inquiridos acredita que o problema está associado à vontade de Deus. Se seria já grave que 52 por cento atribua a infertilidade ao uso de contracepção oral, e 9% aos preservativos, o facto de 4% dos casais portugueses explicarem biologia com Religião só amplifica a tragédia familiar. Em 2009 ainda se acredita que Deus se interpõe na sexualidade humana. É, talvez, esta a tragédia maior de todas.
Será, inversamente, uma boa notícia para aquele contingente imenso de crianças a quem o mundo ainda não compensou pela pouca sorte que tiveram na lotaria familiar. Milhares, também. A quem provavelmente o afecto será ainda mais bem-vindo, perante toda a dor e anomia que sempre conheceram como realidade.
Talvez uma oportunidade se abra para uns e outros, e que as necessidades e carências mútuas possam ser supridas, assim a kafkiana burocracia portuguesa o permita.
Mas há nesta peça noticiosa uma outra coisa aterradora, em 2009. A juntar à tragédia imensa do sentimento de incompletude física decorrente da esterilidade biológica - e não afectiva, como por vezes os directamente envolvidos sentem -, uma outra tragédia pende como um abutre: a do desconhecimento sobre as causas da esterilidade. Um espaço do desconhecimento invariavelmente ocupado pelos arautos da paz paliativa religiosa, naturais predadores da fragilidade humana, cifrado num valor que deve merecer alguma reflexão após 5 séculos de filosofia racional: quase 40% dos inquiridos acredita que o problema está associado à vontade de Deus. Se seria já grave que 52 por cento atribua a infertilidade ao uso de contracepção oral, e 9% aos preservativos, o facto de 4% dos casais portugueses explicarem biologia com Religião só amplifica a tragédia familiar. Em 2009 ainda se acredita que Deus se interpõe na sexualidade humana. É, talvez, esta a tragédia maior de todas.
sábado, 14 de Novembro de 2009
O império do eufemismo
Portugal, país pobre em sensatez mas imensamente rico em incoerência, aprofunda diariamente a nobre arte do eufemismo. Todos os dias, sem excepção, alguém em redor, nas páginas de um jornal, nos frames da televisão, aborda selectivamente o embaraço com a magistral candura de um sofista, a quem não interessa a verdade mas apenas o ascendente circunstancial, qualquer que seja o seu preço.
Três exemplos.
O primeiro-ministro caricatamente reeleito, sustentado por leituras selectivas das suas fraquezas e das forças alheias, e numa inesgotável capacidade de ilusionismo retórico e de condicionamento do timing de divulgação de informações e dados estatísticos cuja verdade toma por inconveniente irreverência - leiam-se os dados sobre o desemprego, sobre o défice das contas públicas, entre vários outros - tentou travestir uma mentira indisfarçável - "nada sei sobre a venda da TVI" - numa acusação de conspiração por parte daqueles que divulgaram precisamente as provas desse conhecimento prévio. Reconhecimento de um erro? Pedido de desculpa por faltar à verdade à população portuguesa? Claro que não. O eufemismo "é perseguição e espionagem" serve perfeitamente,
O PSD entregou no Parlamento um diploma que prevê a criação de um novo modelo de avaliação dos professores. Repito: "um novo modelo". No entanto, habilmente - ou assim o julgam, tal o desrespeito que partilham com o PM pela inteligência dos portugueses - afirma não se tratar de uma "suspensão" do modelo anterior, mas sim, e eufemisticamente, da sua "substituição". Ora, segundo o vice-presidente da bancada social-democrata Pedro Duarte, "substituir" algo não parece implicar "suspender" o anterior. Tal apenas seria possível se os modelos coexistissem, o que não parece ser o caso.
Finalmente, o presidente do Sporting rejeitou a ideia de fracasso na contratação de André Villas-Boas, treinador da Académica, para suceder a Paulo Bento no comando da equipa. Assume que "não foi possível" concretizar essa "possibilidade", depois de a SAD ter confirmado a realização de contactos exploratórios com o representante do treinador da Académica, pelo que “a actual equipa técnica vai manter-se em funções". Portanto, uma possibilidade não concretiza e que acarreta a continuidade de algo que já existe não é "um fracasso". Brilhante.
Era mesmo bom que os cidadãos portugueses fossem mais criteriosos com as suas escolhas. Já não há paciência nem para eleitores iludíveis, nem para representantes eleitos que justificam as suas asneiras como crianças, sobretudo quando tomam por pouco sensatos todos aqueles que as acompanham: quer às asneiras, quer aos adultos-crianças...
Três exemplos.
O primeiro-ministro caricatamente reeleito, sustentado por leituras selectivas das suas fraquezas e das forças alheias, e numa inesgotável capacidade de ilusionismo retórico e de condicionamento do timing de divulgação de informações e dados estatísticos cuja verdade toma por inconveniente irreverência - leiam-se os dados sobre o desemprego, sobre o défice das contas públicas, entre vários outros - tentou travestir uma mentira indisfarçável - "nada sei sobre a venda da TVI" - numa acusação de conspiração por parte daqueles que divulgaram precisamente as provas desse conhecimento prévio. Reconhecimento de um erro? Pedido de desculpa por faltar à verdade à população portuguesa? Claro que não. O eufemismo "é perseguição e espionagem" serve perfeitamente,
O PSD entregou no Parlamento um diploma que prevê a criação de um novo modelo de avaliação dos professores. Repito: "um novo modelo". No entanto, habilmente - ou assim o julgam, tal o desrespeito que partilham com o PM pela inteligência dos portugueses - afirma não se tratar de uma "suspensão" do modelo anterior, mas sim, e eufemisticamente, da sua "substituição". Ora, segundo o vice-presidente da bancada social-democrata Pedro Duarte, "substituir" algo não parece implicar "suspender" o anterior. Tal apenas seria possível se os modelos coexistissem, o que não parece ser o caso.
Finalmente, o presidente do Sporting rejeitou a ideia de fracasso na contratação de André Villas-Boas, treinador da Académica, para suceder a Paulo Bento no comando da equipa. Assume que "não foi possível" concretizar essa "possibilidade", depois de a SAD ter confirmado a realização de contactos exploratórios com o representante do treinador da Académica, pelo que “a actual equipa técnica vai manter-se em funções". Portanto, uma possibilidade não concretiza e que acarreta a continuidade de algo que já existe não é "um fracasso". Brilhante.
Era mesmo bom que os cidadãos portugueses fossem mais criteriosos com as suas escolhas. Já não há paciência nem para eleitores iludíveis, nem para representantes eleitos que justificam as suas asneiras como crianças, sobretudo quando tomam por pouco sensatos todos aqueles que as acompanham: quer às asneiras, quer aos adultos-crianças...
domingo, 25 de Outubro de 2009
Uma honestidade admirável
Leio a entrevista de José Saramago ao DN de hoje. Independentemente de concordarmos ou não com a sua posição - e neste caso concreto, concordo -, creio que é devido a Saramago o respeito que a sua honestidade merece, sobretudo num país onde ainda parece vingar a ideia de "respeitinho" herdada da materialização política ditatorial de uma tendência nacional para a hetero-vigilância moral.
Afirma Saramago, a respeito das aparições em Fátima: "Não percebia como é que a Virgem aparecia em cima de uma azinheira para dar um recado divino a três miúdos analfabetos. Acho que tudo isso foi uma montagem que continua a render". Há grande dúvida de que, no mundo, é sobretudo entre as franjas mais desprotegidas que a ideia de Deus e de Catolicismo vinga?... As estatísticas são, a este respeito, taxativas. E, sobretudo, é necessário afirmar desassombradamente a inacreditável incoerência entre um credo promovido com o princípio do despojo material da recusa de falsos deuses, e a prática de uma Igreja Católica que projecta no seu deus a ética de um banqueiro.
Saramago aponta, aliás, a falência da prática de um credo conceptualmente insustentável quando afirma "quando se entra em leituras históricas e se encontra com o desastre, digamos, do alargamento da influência do cristianismo, que isso custou cidades destruídas, milhares de pessoas mortas, assassinadas, degoladas, queimadas… As Cruzadas foram qualquer coisa que a Igreja devia pedir perdão! As Cruzadas, imediatamente idealizadas com esse absurdo de avançarem contra os inimigos aos gritos. Que sabem eles de Deus? Fiz essa pergunta a um teólogo há pouco tempo: o que é que sabem de Deus, afinal de contas? Não sabem nada, alguém um dia disse que Deus existe e depois os teólogos não têm feito outra coisa senão armar o andaime para que essa ideia se sustenha".
De igual modo na passagem "aquilo que ultrapassa a minha capacidade de compreensão é o facto de que, se houvesse Deus, seria apenas um único Deus (...) mas não é isso que se passa, cada igreja só pensa em derrotar a outra e cada religião só pensa em derrotar a outra. E foi o que se fez: os protestantes, os albigenses, os valdenses perseguidos, enforcados em França".
No entanto, mesmo perante o argumento (clássico) de que são homens (aqui com letra pequena consciente, dado que à mulher não é, habitualmente, conferido pela Igreja outro papel que não o de figurante, ou de actor principal de conduta condenável...) a interpretar mal deus, algumas respostas são devidas, em coerência e honestidade intelectual:
1) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, por que raio deveremos tomar tais interpretações como dogmas e doutrina a seguir?
2) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, porque não é a sua suposta omnipotência capaz de obstar a essas interpretações erradas?
3) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, que lugar ocupam as consequências dessas interpretações erradas no seu "grande plano"?
4) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, por que razão são os seus agentes os condutores da sua palavra?
5) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, e se o seu livro é uma metáfora, porque deve ela ser relativizada e perdoada nas suas asneiras, e outras metáforas (como as de Saramago) perseguidas e recusadas enquanto tal, ou lidas literalmente quando ao livro de deus isso não é exigido?
A estas coisas, em paralelo, acrescenta Saramago que "se a leitura da Bíblia, tal qual ela se apresenta aos olhos de qualquer pessoa, não pode ou deve ser lida assim e se há que levar em conta as leituras simbólicas, então, repito, estão obrigados a colocar ao lado de cada pessoa que esteja a ler a Bíblica um teólogo que oriente essa leitura, para que não caia na tentação, parece que primária e ingénua, de tomar à letra o que lá está".
Continua a parecer-me depois deste episódio - mas já na sequência de outros - que parte da população de Portugal parece co-habituar com a consciência de uma espécie de síntese de Salazar e Cerejeira interiorizada. Pior que o moralismo da crítica ao livre arbítrio e e livre exercício de consciência própria, só o facto de essa crítica parecer saltar apenas quando outros agem, mantendo-se caricatamente silenciosa quando se trata de conduta própria, como se o crime não fosse a prática em si mas o facto de ser prática de outrém. Portugal, nestas coisas de opinar, ainda (re)age como se de um imenso pátio se tratasse, onde o moralismo vive apenas na nossa casa e o pecado em todas as outras.
Afirma Saramago, a respeito das aparições em Fátima: "Não percebia como é que a Virgem aparecia em cima de uma azinheira para dar um recado divino a três miúdos analfabetos. Acho que tudo isso foi uma montagem que continua a render". Há grande dúvida de que, no mundo, é sobretudo entre as franjas mais desprotegidas que a ideia de Deus e de Catolicismo vinga?... As estatísticas são, a este respeito, taxativas. E, sobretudo, é necessário afirmar desassombradamente a inacreditável incoerência entre um credo promovido com o princípio do despojo material da recusa de falsos deuses, e a prática de uma Igreja Católica que projecta no seu deus a ética de um banqueiro.
Saramago aponta, aliás, a falência da prática de um credo conceptualmente insustentável quando afirma "quando se entra em leituras históricas e se encontra com o desastre, digamos, do alargamento da influência do cristianismo, que isso custou cidades destruídas, milhares de pessoas mortas, assassinadas, degoladas, queimadas… As Cruzadas foram qualquer coisa que a Igreja devia pedir perdão! As Cruzadas, imediatamente idealizadas com esse absurdo de avançarem contra os inimigos aos gritos. Que sabem eles de Deus? Fiz essa pergunta a um teólogo há pouco tempo: o que é que sabem de Deus, afinal de contas? Não sabem nada, alguém um dia disse que Deus existe e depois os teólogos não têm feito outra coisa senão armar o andaime para que essa ideia se sustenha".
De igual modo na passagem "aquilo que ultrapassa a minha capacidade de compreensão é o facto de que, se houvesse Deus, seria apenas um único Deus (...) mas não é isso que se passa, cada igreja só pensa em derrotar a outra e cada religião só pensa em derrotar a outra. E foi o que se fez: os protestantes, os albigenses, os valdenses perseguidos, enforcados em França".
No entanto, mesmo perante o argumento (clássico) de que são homens (aqui com letra pequena consciente, dado que à mulher não é, habitualmente, conferido pela Igreja outro papel que não o de figurante, ou de actor principal de conduta condenável...) a interpretar mal deus, algumas respostas são devidas, em coerência e honestidade intelectual:
1) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, por que raio deveremos tomar tais interpretações como dogmas e doutrina a seguir?
2) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, porque não é a sua suposta omnipotência capaz de obstar a essas interpretações erradas?
3) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, que lugar ocupam as consequências dessas interpretações erradas no seu "grande plano"?
4) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, por que razão são os seus agentes os condutores da sua palavra?
5) se falamos apenas de interpretações humanas de deus, e se o seu livro é uma metáfora, porque deve ela ser relativizada e perdoada nas suas asneiras, e outras metáforas (como as de Saramago) perseguidas e recusadas enquanto tal, ou lidas literalmente quando ao livro de deus isso não é exigido?
A estas coisas, em paralelo, acrescenta Saramago que "se a leitura da Bíblia, tal qual ela se apresenta aos olhos de qualquer pessoa, não pode ou deve ser lida assim e se há que levar em conta as leituras simbólicas, então, repito, estão obrigados a colocar ao lado de cada pessoa que esteja a ler a Bíblica um teólogo que oriente essa leitura, para que não caia na tentação, parece que primária e ingénua, de tomar à letra o que lá está".
Continua a parecer-me depois deste episódio - mas já na sequência de outros - que parte da população de Portugal parece co-habituar com a consciência de uma espécie de síntese de Salazar e Cerejeira interiorizada. Pior que o moralismo da crítica ao livre arbítrio e e livre exercício de consciência própria, só o facto de essa crítica parecer saltar apenas quando outros agem, mantendo-se caricatamente silenciosa quando se trata de conduta própria, como se o crime não fosse a prática em si mas o facto de ser prática de outrém. Portugal, nestas coisas de opinar, ainda (re)age como se de um imenso pátio se tratasse, onde o moralismo vive apenas na nossa casa e o pecado em todas as outras.
Princípios de desigualdade (1)
Acabo de ler no DN esta pérola da igualdade entre cidadãos e instituições, e sobretudo, entre cidadãos e Estado. Mais grave que a impunidade decorrente de a PSP aplicar "uma punição equivalente a zero" a um superintendente acusado de peculato, abuso de poder, favorecimentos pessoais e desvio de milhares de euros da instituição, só mesmo o facto de elementos da PSP e também sindicalistas (particularmente no caso destes últimos...) acusarem a corporação de ter "uma lei interna mais leve para oficiais e pesada para agentes e subchefes", em vez de a acusarem de aplicar uma lei aos cidadãos e outra aos membros da corporação... Diz algo sobre uma certa visão do favorecimento interno como uma inerência...
sábado, 24 de Outubro de 2009
Vasco Pulido Valente em "Saramago-tem-um-nobel-mas-o-único-português-inteligente-sou-eu"
Começo por indicar o nome que vale a pena dar à coluna de opinião de Vasco Pulido Valente - sim, infelizmente, há jornais em Portugal que ainda consideram boa ideia gastar tinta e cilindros com o seu quixotismo... - e que não podia ser outro que não ..."O-Saramago-tem-um-nobel-mas-o-único-português-inteligente-sou-eu". Descrevo porquê nos comentários abaixo.
Em primeiro lugar, para homem (com letra muito pequenina) auto-proclamado "inteligente", VPV comete demasiados erros na reconstituição histórica do debate (pré-)Modernidade vs Catolicismo. Não é ao séc. XIX que remontam as réplicas de Saramago face a postulados comportamentais de origem eclesiástica, mas sim aos sés. XIV e XV. Talvez se VPV utilizasse em leituras algum do tempo que emprega a contemplar a qualidade intelectual do cotão do próprio umbigo aprendesse alguma coisa. Ainda é tempo disso, mesmo considerando que a sua idade pode também, com legitimidade, ser considerada prenúncio da sua senilidade, à semelhança do que deselegantemente afirma em relação a Saramago.
Em segundo lugar, e como segundo exercício de estupidez e de falta de sentido auto-crítico, não deixa de ser de extrema comicidade que VPV - e sobretudo VPV - apelide de "zangado" qualquer outro ser humano em Portugal, mesmo sobre ele projectando a lisonja de tal caracter. É certo que é necessária uma pessoa zangada com o mundo para reconhecer outra, e sobre isso bastaria ler as suas crónicas - prática que desaconselho vivamente, mesmo enquanto objecto de análise de conteúdo.
Em terceiro lugar, como VPV sabe mas mal educadamente esquece, as expectativas são também uma variável do percurso académico. E nesse particular, curiosamente, até é ao próprio VPV que fica muito mal fazer da sua suposta superioridade intelectual utilização tão medíocre plasmada no insulto - ele sim - típico de "trolha" ou de "semianalfabeto". E já agora, Vasco, só porque sim, era bom repor o hífen ausente neste último vocábulo, contingência certamente da forma como as mentes superiores se encontram isentas de respeitar esta coisa vulgar e mundana chamada correcção ortográfica. Para além de privar-nos de algo que valha realmente a pena ler nas suas crónicas, privar também o leitor de uma escrita decente é, parece-me, demasiado.
Em quarto lugar, concordamos realmente numa ideia, Vasco: "não há desculpa para o país" que perde tempo a dar crédito ao que diz.
Em quinto lugar, creio ser "inteligente" e de cidadão que "leu o que devia ter lido" dar crédito a quem o merece: se "Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada", algo deram ao mundo que o Vasco, na inexistência da propriedade de tal galardão, não deu. A menos que exista um Nobel para a azia, mas mesmo o da Química normalmente escolhe pessoas mais nobres que o Vasco. Temos pena: a mesma "muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita" soube, pelo menos, escolher entre a literatura que acrescenta, e a sua, que a outra companhia não pode aspirar que a do peixe ou das castanhas, e mesmo essa apenas transitoriamente: até o peixe e as castanhas têm o seu critério, honra lhes seja feita.
Finalmente, em sexto lugar, é certo que "o regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha". Creio que é precisamente a esse princípio que o Vasco deve o seu tempo de antena. Talvez a substituição tecnológica das antenas pelo cabo, e depois pela fibra, seja uma metáfora a que o Vasco deva dedicar alguma reflexão. Precisamente como afirma, "nem por caridade cristã", nem por qualquer outra, é possível tolerá-lo por muito mais tempo, mesmo considerando que a cristã até costuma ter duração superior, em virtude da sua capa de gnoseológico masoquismo. Com efeito, se pode ser tarefa hercúlea "explicar a mediocridade a um medíocre", a boçalidade do intelectual enfadado é, de entre os seus "dotes de educação", e muito mais que a primeira, de supressão prática impossível. Se não tem algo a acrescentar de relevante, conceda-nos, por favor, o benefício do seu silêncio.
Em primeiro lugar, para homem (com letra muito pequenina) auto-proclamado "inteligente", VPV comete demasiados erros na reconstituição histórica do debate (pré-)Modernidade vs Catolicismo. Não é ao séc. XIX que remontam as réplicas de Saramago face a postulados comportamentais de origem eclesiástica, mas sim aos sés. XIV e XV. Talvez se VPV utilizasse em leituras algum do tempo que emprega a contemplar a qualidade intelectual do cotão do próprio umbigo aprendesse alguma coisa. Ainda é tempo disso, mesmo considerando que a sua idade pode também, com legitimidade, ser considerada prenúncio da sua senilidade, à semelhança do que deselegantemente afirma em relação a Saramago.
Em segundo lugar, e como segundo exercício de estupidez e de falta de sentido auto-crítico, não deixa de ser de extrema comicidade que VPV - e sobretudo VPV - apelide de "zangado" qualquer outro ser humano em Portugal, mesmo sobre ele projectando a lisonja de tal caracter. É certo que é necessária uma pessoa zangada com o mundo para reconhecer outra, e sobre isso bastaria ler as suas crónicas - prática que desaconselho vivamente, mesmo enquanto objecto de análise de conteúdo.
Em terceiro lugar, como VPV sabe mas mal educadamente esquece, as expectativas são também uma variável do percurso académico. E nesse particular, curiosamente, até é ao próprio VPV que fica muito mal fazer da sua suposta superioridade intelectual utilização tão medíocre plasmada no insulto - ele sim - típico de "trolha" ou de "semianalfabeto". E já agora, Vasco, só porque sim, era bom repor o hífen ausente neste último vocábulo, contingência certamente da forma como as mentes superiores se encontram isentas de respeitar esta coisa vulgar e mundana chamada correcção ortográfica. Para além de privar-nos de algo que valha realmente a pena ler nas suas crónicas, privar também o leitor de uma escrita decente é, parece-me, demasiado.
Em quarto lugar, concordamos realmente numa ideia, Vasco: "não há desculpa para o país" que perde tempo a dar crédito ao que diz.
Em quinto lugar, creio ser "inteligente" e de cidadão que "leu o que devia ter lido" dar crédito a quem o merece: se "Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada", algo deram ao mundo que o Vasco, na inexistência da propriedade de tal galardão, não deu. A menos que exista um Nobel para a azia, mas mesmo o da Química normalmente escolhe pessoas mais nobres que o Vasco. Temos pena: a mesma "muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita" soube, pelo menos, escolher entre a literatura que acrescenta, e a sua, que a outra companhia não pode aspirar que a do peixe ou das castanhas, e mesmo essa apenas transitoriamente: até o peixe e as castanhas têm o seu critério, honra lhes seja feita.
Finalmente, em sexto lugar, é certo que "o regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha". Creio que é precisamente a esse princípio que o Vasco deve o seu tempo de antena. Talvez a substituição tecnológica das antenas pelo cabo, e depois pela fibra, seja uma metáfora a que o Vasco deva dedicar alguma reflexão. Precisamente como afirma, "nem por caridade cristã", nem por qualquer outra, é possível tolerá-lo por muito mais tempo, mesmo considerando que a cristã até costuma ter duração superior, em virtude da sua capa de gnoseológico masoquismo. Com efeito, se pode ser tarefa hercúlea "explicar a mediocridade a um medíocre", a boçalidade do intelectual enfadado é, de entre os seus "dotes de educação", e muito mais que a primeira, de supressão prática impossível. Se não tem algo a acrescentar de relevante, conceda-nos, por favor, o benefício do seu silêncio.
sábado, 29 de Agosto de 2009
Outro exemplo de Jornalismo social e racialmente irresponsável
Não é a primeira vez que uma peça noticiosa redigida por Daniel Lam me retém a atenção e, à semelhança da situação anterior em que tal sucedeu, fá-lo hoje pelas piores razões.
Mais uma vez, Daniel Lam insiste em apresentar uma peça pouco fundamentada em factos e, pior que isso, com um tom levemente xenófobo que é inaceitável em Jornalismo sério e ideologicamente descomprometido.
Afirmar, como o faz, que "Quatro dezenas de africanos" se envolveram "à pancada" é, para além de uma utilização medíocre da Língua Portuguesa que nivela por baixo o jornal em que trabalha (DN), de uma generalização xenofobizada inaceitável. Em que se baseou para fazer essa afirmação: na cor da pele? Serão europeus e asiáticos todos os passageiros brancos que viajam nas carruagens da CP?
Pior que a natureza ideológica da afirmação, só mesma a sua falta de fundamentação factual: para a fazer, Daniel Lam baseia-se neste facto inatacável e de uma conduta jornalística ímpar: "As versões dos acontecimentos são ainda pouco consistentes (...) Fala-se de dois grupos rivais de guineenses e cabo-verdianos (...)". Estamos, portanto, não apenas no domínio do olhar jornalístico eticamente desviado, mas tecnicamente incompetente e apoiado exclusivamente no rumor.
Numa era em que, erradamente, se preconiza o fim do Jornalismo e da importância dos seus agentes como os conhecemos, era bom que todos os seus profissionais remassem para o lado certo, apresentando trabalho que justifique o título que ostentam, o acesso privilegiado de que beneficiam, e a confiança que lhes é atribuída pelos cidadãos.
Mais uma vez, Daniel Lam insiste em apresentar uma peça pouco fundamentada em factos e, pior que isso, com um tom levemente xenófobo que é inaceitável em Jornalismo sério e ideologicamente descomprometido.
Afirmar, como o faz, que "Quatro dezenas de africanos" se envolveram "à pancada" é, para além de uma utilização medíocre da Língua Portuguesa que nivela por baixo o jornal em que trabalha (DN), de uma generalização xenofobizada inaceitável. Em que se baseou para fazer essa afirmação: na cor da pele? Serão europeus e asiáticos todos os passageiros brancos que viajam nas carruagens da CP?
Pior que a natureza ideológica da afirmação, só mesma a sua falta de fundamentação factual: para a fazer, Daniel Lam baseia-se neste facto inatacável e de uma conduta jornalística ímpar: "As versões dos acontecimentos são ainda pouco consistentes (...) Fala-se de dois grupos rivais de guineenses e cabo-verdianos (...)". Estamos, portanto, não apenas no domínio do olhar jornalístico eticamente desviado, mas tecnicamente incompetente e apoiado exclusivamente no rumor.
Numa era em que, erradamente, se preconiza o fim do Jornalismo e da importância dos seus agentes como os conhecemos, era bom que todos os seus profissionais remassem para o lado certo, apresentando trabalho que justifique o título que ostentam, o acesso privilegiado de que beneficiam, e a confiança que lhes é atribuída pelos cidadãos.
quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
A monarquia: uma anedota sem piada
Custa-me escrever este post com uma cara séria. Reconheço-o assim, a frio, sem problemas de consciência.
Há alguns dias, meia dúzia de adultos com idade para terem juízo e, mais importante, algum sentido de ridículo, resolveram cometer um crime para defender uma causa ideológica: entraram indevidamente num edifício público, durante a noite, e roubaram a bandeira nele existente, substituindo-a por uma outra, mais afecta ao seu posicionamento ideológico.
Pela segunda vez no espaço de alguns anos, algumas vozes se levantam a defender o roubo como forma de expressão, desvalorizando-o com tudo e um par de botas, como se fosse defensável. Primeiro, alguns "jovens" em férias num outro país Europeu quiseram "fazer a gracinha" de trazer como "recordação" a bandeira do mesmo. Foram acusados em tribunal. Mas em Portugal, esse belo país onde a lei é (como apontava Jorge Sampaio há algum tempo atrás) uma "referência" que alguns cidadãos decidem depois se respeitam ou não, não faltou quem quisesse desculpar os pobres petizes, que "não sabiam" que não deviam roubar, que "não fizeram por mal", que tudo era "um exagero".
Agora, adultos que agem como crianças mal-formadas e mal-educadas, mesmo quando ostentam apelidos pomposos como Burnay, Moita de Deus, ou Távora, afirmam que nada de grave se passou, e que, na sua imensa simpatia, até estão dispostos a devolver a bandeira roubada, como se tudo isto fosse apenas o comportamento de miúdos mariolas inconsequentes.
Já é de uma parvoíce incomensurável fazer a defesa da Monarquia, mesmo que Constitucional, em Portugal; mas é de uma falta de vergonha intelectual e histórica faze-lo argumentando ser essa a "vontade dos portugueses": quer seja porque "os portugueses" não se reduzem ao exército de empregados e empregadas que servem estes "amorosos patifes" ou ao círculo de amigos em que acreditam piamente ser politicamente relevantes, quer seja afirmando que essa defesa tem subjacente a ideia de Liberdade, num país onde ela teve de ser recuperada há 99 anos, pondo fim a uma sequência de séquitos caducos que exploravam as riquezas nacionais por capricho.
Colocar "liberdade" e "monarquia" na mesma frase só é possível em três circunstâncias: 1) se uma delas tiver associada uma negativa; 2) se o porta-voz não tiver tomado o seu lítio pela manhã; 3) se, como afirma um dos "cómicos" do "movimento" (até porque conotar a Monarquia com qualquer tipo "movimento" faz imenso sentido...), "o sentido de humor é a melhor propaganda que a Monarquia poderia ter"... Eu diria que é mesmo o único meio onde pode ter algum sucesso: como número de stand-up... Com o tema "I started a joke" como fundo...
O que gostaria mesmo era de ver estes ilustres "paladinos da liberdade" a aplicar à pequena criminalidade, sobretudo àquela (infelizmente) praticada por cidadãos imigrantes, esta leviandade na desvalorização da prática de um crime...
Por último, e nem que fosse por decoro e inteligência, era bom que Nuno Ramos de Almeida reconhecesse que o roubo de uma bandeira de um edificio público não é bem o mesmo que "determinadas coisas que não são crimes: greves, manifestações, cortes de estrada e mudanças de bandeira": estes, a Lei permite e enquadra...
Há alguns dias, meia dúzia de adultos com idade para terem juízo e, mais importante, algum sentido de ridículo, resolveram cometer um crime para defender uma causa ideológica: entraram indevidamente num edifício público, durante a noite, e roubaram a bandeira nele existente, substituindo-a por uma outra, mais afecta ao seu posicionamento ideológico.
Pela segunda vez no espaço de alguns anos, algumas vozes se levantam a defender o roubo como forma de expressão, desvalorizando-o com tudo e um par de botas, como se fosse defensável. Primeiro, alguns "jovens" em férias num outro país Europeu quiseram "fazer a gracinha" de trazer como "recordação" a bandeira do mesmo. Foram acusados em tribunal. Mas em Portugal, esse belo país onde a lei é (como apontava Jorge Sampaio há algum tempo atrás) uma "referência" que alguns cidadãos decidem depois se respeitam ou não, não faltou quem quisesse desculpar os pobres petizes, que "não sabiam" que não deviam roubar, que "não fizeram por mal", que tudo era "um exagero".
Agora, adultos que agem como crianças mal-formadas e mal-educadas, mesmo quando ostentam apelidos pomposos como Burnay, Moita de Deus, ou Távora, afirmam que nada de grave se passou, e que, na sua imensa simpatia, até estão dispostos a devolver a bandeira roubada, como se tudo isto fosse apenas o comportamento de miúdos mariolas inconsequentes.
Já é de uma parvoíce incomensurável fazer a defesa da Monarquia, mesmo que Constitucional, em Portugal; mas é de uma falta de vergonha intelectual e histórica faze-lo argumentando ser essa a "vontade dos portugueses": quer seja porque "os portugueses" não se reduzem ao exército de empregados e empregadas que servem estes "amorosos patifes" ou ao círculo de amigos em que acreditam piamente ser politicamente relevantes, quer seja afirmando que essa defesa tem subjacente a ideia de Liberdade, num país onde ela teve de ser recuperada há 99 anos, pondo fim a uma sequência de séquitos caducos que exploravam as riquezas nacionais por capricho.
Colocar "liberdade" e "monarquia" na mesma frase só é possível em três circunstâncias: 1) se uma delas tiver associada uma negativa; 2) se o porta-voz não tiver tomado o seu lítio pela manhã; 3) se, como afirma um dos "cómicos" do "movimento" (até porque conotar a Monarquia com qualquer tipo "movimento" faz imenso sentido...), "o sentido de humor é a melhor propaganda que a Monarquia poderia ter"... Eu diria que é mesmo o único meio onde pode ter algum sucesso: como número de stand-up... Com o tema "I started a joke" como fundo...
O que gostaria mesmo era de ver estes ilustres "paladinos da liberdade" a aplicar à pequena criminalidade, sobretudo àquela (infelizmente) praticada por cidadãos imigrantes, esta leviandade na desvalorização da prática de um crime...
Por último, e nem que fosse por decoro e inteligência, era bom que Nuno Ramos de Almeida reconhecesse que o roubo de uma bandeira de um edificio público não é bem o mesmo que "determinadas coisas que não são crimes: greves, manifestações, cortes de estrada e mudanças de bandeira": estes, a Lei permite e enquadra...
terça-feira, 4 de Agosto de 2009
"Falar Verdade"
Infelizmente, em Portugal, há de facto custos eleitorais associados ao exercício da actividade política dado que, entre outras razões, os eleitores não apenas têm uma memória curtíssima como incorrem no disparate recorrente de avaliar pessoas por rumores e não por carácter, pelo discurso e pela caneta oferecida em vez do rigor do desempenho e do seu impacto.
Independentemente do timing pouco inocente sempre associado a eventos e decisões de natureza política e judicial em Portugal - e só sobre isto poderiam ser escritas teses, e não posts... - assistimos nos últimos dias a uma inversão da tendência crescente do PSD sobre o PS, resposta provável do embaraço gerado junto deste último pelos contornos do convite-que-não-o-foi a uma destacada militante do Bloco de Esquerda.
No espaço de uma semana, custou ao PS algum crédito uma tentativa frustrada de sedução de uma militante de outro partido. E se até poderia ser encarado como um sinal de abertura e de reconhecimento de competência a alguém fora do seu quadrante político, ficam nuances extremamente negativas dessa iniciativa: primeiro, o facto de não ter sido assumido como tal (e quanto a "transparência" estamos conversados); segundo, o facto de parecer estar associado a uma forma sub-reptícia de exercício de influência sobre a agenda do partido originário dessa militante; terceiro, o facto de o convite ser feito a troco de um apoio eleitoral, e não pós-eleitoral; quarto, o facto de parecer apontar a uma militante cronicamente pouco esclarecida nos seus princípios e preferências ideológicas.
Mas eis que - e aqui regressamos à "inocência" do timing, o PSD se vê privado de qualquer benefício daí resultante, por culpa própria mas também por culpa de outrém. Primeiro, a sentença de Isaltino Morais, justamente apontado por Marques Mendes (ainda que de forma não explícita) como um dos casos de falta de ética e de respeito pela Lei (agravado por se tratar de um ex-magistrado, o que é em si mesmo extremamente significativo do estado da Justiça em Portugal), e a cuja conduta e eventuais repercussões na constituição das listas do PSD a melhor resposta dada por Manuela Ferreira Leite foi um não-me-obriguem-a-tomar-posições-sérias-para-não-me-cair-a-máscara traduzido num ridículo "a época de constituição de listas não é a altura certa para pensar em quem tem, na realidade, carácter para fazer parte de listas". Apetece perguntar-lhe que timing melhor conhece mas descobrimos depois que essa patética reacção se prendia com a imposição, por si colocada, de nomes de dois arguidos à lista do PSD por Lisboa (e quanto a "falar verdade" também aqui estamos conversados).
Mário Soares afirma recentemente que a escolha entre os dois partidos de centro não é um acto de discriminação política, mas uma atitude de realismo. Apetece responder ser essa, provavelmente, a razão pela qual a política em Portugal se tornou o nojo que hoje constitui. Com os exemplos dados por ambos, PSD e PS, não admira que "falar verdade" e ser "transparente" tenham deixado de ser critério.
Independentemente do timing pouco inocente sempre associado a eventos e decisões de natureza política e judicial em Portugal - e só sobre isto poderiam ser escritas teses, e não posts... - assistimos nos últimos dias a uma inversão da tendência crescente do PSD sobre o PS, resposta provável do embaraço gerado junto deste último pelos contornos do convite-que-não-o-foi a uma destacada militante do Bloco de Esquerda.
No espaço de uma semana, custou ao PS algum crédito uma tentativa frustrada de sedução de uma militante de outro partido. E se até poderia ser encarado como um sinal de abertura e de reconhecimento de competência a alguém fora do seu quadrante político, ficam nuances extremamente negativas dessa iniciativa: primeiro, o facto de não ter sido assumido como tal (e quanto a "transparência" estamos conversados); segundo, o facto de parecer estar associado a uma forma sub-reptícia de exercício de influência sobre a agenda do partido originário dessa militante; terceiro, o facto de o convite ser feito a troco de um apoio eleitoral, e não pós-eleitoral; quarto, o facto de parecer apontar a uma militante cronicamente pouco esclarecida nos seus princípios e preferências ideológicas.
Mas eis que - e aqui regressamos à "inocência" do timing, o PSD se vê privado de qualquer benefício daí resultante, por culpa própria mas também por culpa de outrém. Primeiro, a sentença de Isaltino Morais, justamente apontado por Marques Mendes (ainda que de forma não explícita) como um dos casos de falta de ética e de respeito pela Lei (agravado por se tratar de um ex-magistrado, o que é em si mesmo extremamente significativo do estado da Justiça em Portugal), e a cuja conduta e eventuais repercussões na constituição das listas do PSD a melhor resposta dada por Manuela Ferreira Leite foi um não-me-obriguem-a-tomar-posições-sérias-para-não-me-cair-a-máscara traduzido num ridículo "a época de constituição de listas não é a altura certa para pensar em quem tem, na realidade, carácter para fazer parte de listas". Apetece perguntar-lhe que timing melhor conhece mas descobrimos depois que essa patética reacção se prendia com a imposição, por si colocada, de nomes de dois arguidos à lista do PSD por Lisboa (e quanto a "falar verdade" também aqui estamos conversados).
Mário Soares afirma recentemente que a escolha entre os dois partidos de centro não é um acto de discriminação política, mas uma atitude de realismo. Apetece responder ser essa, provavelmente, a razão pela qual a política em Portugal se tornou o nojo que hoje constitui. Com os exemplos dados por ambos, PSD e PS, não admira que "falar verdade" e ser "transparente" tenham deixado de ser critério.
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